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[Nó de Rede] Enraizados promove "Conferência Internacional de Educação Clandestina" para debater os saberes produzidos nas margens

Evento nasce a partir do diálogo entre experiências comunitárias do Brasil e dos Estados Unidos, transbordando para Peru, Reino Unido e México, buscando reunir educadores, pesquisadores, artistas, movimentos sociais e lideranças territoriais em torno de práticas formativas não reconhecidas pelo currículo oficial

Por Comunicação
[Nó de Rede] Enraizados promove "Conferência Internacional de Educação Clandestina" para debater os saberes produzidos nas margens

A Conferência Internacional de Educação Clandestina — CIEC surge como uma iniciativa voltada ao debate sobre processos educativos desenvolvidos a margem dos currículos oficiais. A proposta é reunir lideranças comunitárias, produtores culturais, pesquisadores, educadores, artistas, Pontos de Cultura, estudantes, gestores públicos, movimentos sociais e demais interessados em refletir sobre formas de produção de conhecimento que emergem dos territórios, das práticas culturais e das lutas sociais.


A conferência parte da compreensão de que a educação não acontece apenas na escola nem se restringe ao currículo oficial. Segundo a concepção que orienta o encontro, diferentes sujeitos e comunidades produzem, cotidianamente, práticas pedagógicas, políticas, culturais e comunitárias capazes de gerar conhecimento, formação crítica, consciência cidadã e transformação social.


Nesse contexto, o termo “Educação Clandestina” é utilizado para nomear processos de formação política, cultural e cidadã que surgem das necessidades concretas dos sujeitos e dos territórios. São experiências que, muitas vezes, não recebem reconhecimento oficial como práticas educativas, mas que participam diretamente da construção de identidades, memórias, pertencimentos, formas de resistência e organização coletiva.


A proposta não limita o conceito às ações realizadas fora da escola. A Educação Clandestina também pode ocorrer dentro do ambiente escolar, quando educadores, estudantes e comunidades reinventam o currículo, tensionam os limites institucionais e constroem práticas formativas conectadas à realidade dos sujeitos. Dessa forma, a conferência pretende discutir a existência de um currículo próprio, produzido a partir das experiências, inquietações, saberes e compromissos políticos de cada território.


A CIEC defende que esse currículo não deve ser compreendido como menor ou secundário. Pelo contrário, ele é apontado como fundamental para a formação de pessoas que buscam compreender criticamente o mundo, ocupar espaços, enfrentar desigualdades e atuar na transformação da realidade. A ideia central é que a sociedade está em disputa e que os sujeitos podem assumir papel ativo na construção de novas formas de viver, pensar, criar e organizar o mundo.


As experiências associadas à Educação Clandestina estão presentes em diferentes espaços: ruas, coletivos culturais, movimentos populares, rodas de conversa, batalhas de rima, terreiros, periferias, quilombos, associações de moradores, projetos sociais, igrejas, práticas artísticas, organizações comunitárias e também em escolas abertas a outros modos de ensinar e aprender.


A conferência pretende reunir iniciativas desenvolvidas em escolas, coletivos culturais, organizações sociais, movimentos populares, projetos comunitários e produções acadêmicas de diferentes partes do mundo. O objetivo é discutir não apenas as práticas educativas em si, mas também os caminhos que levam sujeitos e comunidades a buscá-las, construí-las e reconhecê-las como parte de seus próprios processos formativos.


De acordo com a proposta da CIEC, uma única experiência pode provocar indignação, despertar perguntas, ampliar horizontes e colocar uma pessoa em movimento. A partir desse despertar, o sujeito passa a buscar novas referências, espaços de aprendizagem, redes de solidariedade e formas de participação social. É nesse processo contínuo de busca, encontro, disputa e construção coletiva de saberes que o conceito de Educação Clandestina é situado.


Longe do desejo de apresentar uma definição fechada, a conferência propõe que o conceito seja discutido coletivamente pelos participantes. A intenção é reunir múltiplas vozes, trajetórias, práticas e territórios para ampliar, tensionar e aprofundar a compreensão sobre o tema.


A dimensão internacional da Conferência Internacional de Educação Clandestina


A dimensão internacional da Conferência Internacional de Educação Clandestina nasce de uma experiência concreta de encontro entre territórios. Em abril de 2024, durante uma viagem de Durham, na Carolina do Norte, até Athens, na Geórgia, o rapper, educador e pesquisador Dudu de Morro Agudo participou de uma imersão em experiências comunitárias, culturais e educativas desenvolvidas naquele território.


A atividade ocorreu a convite do professor John French e contou também com a participação de Travis Williams, professor, pastor, doutorando da Duke University e morador criado em Athens. Foi Travis quem conduziu Dudu por diferentes espaços marcados pela luta, pela resistência e pela produção coletiva de conhecimento.


Durante a imersão, Dudu visitou a Cedar Shoals High School, em Athens, escola que atende estudantes do 9º ao 12º ano, etapa que corresponde aproximadamente ao ensino médio brasileiro. Na instituição, Montu Miller atua como professor e integra o hip hop aos planos de aula.


Montu Miller, também conhecido como William “Montu” Miller, é uma das principais referências da cultura hip hop em Athens, Georgia, nos Estados Unidos. Ele leciona AP African American Studies, Ethnic Studies e Peer Leadership. Miller é formado pela University of Georgia, onde cursou African American Studies, e possui mestrado em ensino pela Piedmont University.


Dudu também participou do Beats, Rhymes & Life, série de open mic organizada por Montu Miller no Hendershot’s, um café, bar e casa de shows localizado em Athens. A cidade, conhecida por sua forte cena musical universitária, abriga espaços como o Hendershot’s, que combina coffee shop, bar e music venue, com programação de música ao vivo, eventos locais, jazz, comédia, open mic, comida, coquetéis e café torrado localmente.


Outro espaço fundamental visitado durante a imersão foi a Chess & Community Inc., organização comunitária sem fins lucrativos sediada em Athens. A organização trabalha com juventudes utilizando o xadrez como porta de entrada para a formação crítica, a liderança, a disciplina, o pensamento estratégico e a participação comunitária.


Foi nesse espaço que surgiu a primeira troca de ideias sobre a possibilidade de construção de uma conferência, incentivada por Lemuel “Life” LaRoche, fundador da organização. Em 2002, LaRoche começou a utilizar o xadrez como modelo de pensamento crítico com adolescentes ligados ao sistema de justiça juvenil. A iniciativa teve início como um clube chamado Classic City Knights e, posteriormente, transformou-se na Chess & Community Inc., fundada em 2012.


A missão da organização é expor estudantes a “novas formas de pensar e ser”. Na prática, isso significa trabalhar com juventudes a partir de diferentes frentes, como xadrez, robótica, realidade virtual, programação, debate, oratória, liderança cívica, educação financeira, serviço comunitário e resolução de conflitos.


A Chess & Community também realiza a Chess & Community Conference, conferência anual que reúne torneio de xadrez, debates, produção cultural, juventude, comunidade e discussão sobre problemas sociais de Athens. A Universidade da Geórgia descreve a organização como uma iniciativa voltada ao empoderamento de jovens líderes no nordeste da Geórgia por meio do pensamento crítico, do engajamento cívico, da aprendizagem entre pares e de experiências culturais.


Durante a imersão, foram visitados projetos liderados por pessoas negras, dentro e fora dos muros da escola. Muitos desses espaços tinham ligação direta com a cultura hip hop, como estúdios, podcasts, saraus, iniciativas de produção musical, comunicação e encontros comunitários. Também foram conhecidas experiências de outra natureza, como este projeto de xadrez voltado à juventude local.


Apesar das diferenças entre as iniciativas, os projetos apresentavam um elemento comum: a produção de conhecimentos considerados essenciais para que jovens daquele território pudessem compreender o mundo, sobreviver a ele e transformá-lo. São saberes que nem sempre aparecem no currículo escolar oficial, mas que contribuem para a construção de pertencimento, disciplina, leitura crítica da realidade, estratégia, autonomia, organização coletiva e perspectiva de futuro.


A partir dessa experiência, começou a surgir a ideia de uma conferência capaz de reunir pessoas, projetos e territórios para trocar experiências, pensar coletivamente e produzir novos conhecimentos.


O caráter internacional do encontro não se dá apenas pela conexão entre Brasil e Estados Unidos, mas pelo reconhecimento de que diferentes territórios do mundo desenvolvem práticas semelhantes de formação, resistência e transformação social. Essa perspectiva permite aproximar experiências como as de Bocafloja, no México; MoYah, no Reino Unido; e Liberato Kani, no Peru.


Bocafloja, nome artístico de Aldo Villegas, é rapper, poeta, artista de spoken word, cineasta e comunicador social mexicano, nascido na Cidade do México. Um dos pontos mais fortes de sua obra é a discussão sobre a negritude no México. Identificado como artista afro-mexicano, Bocafloja denuncia o apagamento da presença negra na formação da identidade mexicana. Em estudos sobre hip-hop e pedagogias decoloniais, sua obra aparece como exemplo de como o rap pode revelar histórias silenciadas e confrontar o racismo antinegro na América Latina.


MoYah, nome artístico de Mohammed Yahya, é rapper, poeta, educador, produtor cultural e ativista nascido em Moçambique e radicado no Reino Unido. Ele também atua como educador e facilitador de oficinas. É apresentado pela May Project Gardens, organização britânica ligada à ecologia, juventude e justiça social, como Afro-fusion rapper, artistic activist, educator e award-winning interfaith creative producer. MoYah também está vinculado ao programa Hip Hop Garden, que articula hip hop, educação, meio ambiente e trabalho comunitário.


Liberato Kani, rapper peruano nascido em Lima e criado no distrito de San Juan de Lurigancho, uma das regiões populares mais populosas da capital peruana, tornou-se conhecido por transformar o quéchua em linguagem de rap contemporâneo. A importância de Kani não está apenas no fato de cantar em quéchua, mas no modo como faz disso uma afirmação de identidade e resistência. 


Embora seja falado por milhões de pessoas na América do Sul, o quéchua foi historicamente marginalizado, tratado como língua inferior diante do espanhol e associado ao atraso, à pobreza ou ao mundo rural. Ao colocar essa língua no rap, Kani desloca esse lugar de subalternidade e afirma que a cultura indígena também é urbana, moderna, política e global.


Após a viagem, as conversas entre os envolvidos continuaram ao longo dos meses. A proposta ganhou forma até ser incorporada ao Festival Caleidoscópio como um espaço específico para o debate sobre Educação Clandestina.


Nesse contexto, Travis Williams vem ao Brasil para compartilhar experiências desenvolvidas em Athens, especialmente a partir do trabalho com o xadrez e outras práticas comunitárias de formação. Ao lado de Dudu de Morro Agudo, ele participa da construção de um diálogo internacional sobre saberes produzidos por juventudes, culturas populares, organizações comunitárias e experiências de resistência.


A CIEC se apresenta, portanto, como uma conferência internacional porque nasce do encontro entre territórios como Morro Agudo, Athens, Durham, a Baixada Fluminense e outros lugares marcados por desafios distintos, mas também por respostas semelhantes: redes de cuidado, cultura, educação, estratégia, memória e luta.


A proposta do encontro não é importar modelos nem comparar realidades de forma hierarquizada. O objetivo é construir pontes entre experiências que, em diferentes partes do mundo, afirmam que a educação também acontece onde comunidades se organizam, criam, ensinam, aprendem e inventam caminhos para continuar existindo.


A Conferência Internacional de Educação Clandestina se apresenta, assim, como um espaço de encontro entre práticas, territórios e pensamentos. A iniciativa pretende reconhecer e debater formas de educação produzidas nas margens, nas ruas, nas comunidades, nos corpos, nas vozes e nas lutas de pessoas e coletivos que transformam necessidade em conhecimento e conhecimento em movimento.


SERVIÇO

CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO CLANDESTINA

Quando: 03 de julho de 2026

Onde: Quilombo Enraizados

Rua Presidente Kennedy, 41, Morro Agudo, Nova Iguaçu, RJ

Quanto: De graça


PROGRAMAÇÃO

09:00 - Apresentação de trabalho - GT01A

10:30 - Mesa 01

14:00 - SLAM

15:00 - Apresentação de trabalho - GT01B

16:30 - Mesa 02

18:00 - Baile do Titio


Inscrições e informações atualizadas: http://www.festivalcaleidoscopio.com.br

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